O que se espera dos projetos acadêmicos na pandemia?

Dificilmente algum aluno ou aluna no país não foram impactados pela nova realidade acadêmica que se impôs durante a pandemia. Ainda que usualmente o ensino fundamental e médio sejam foco das discussões sobre o assunto, no ensino superior (ES) a realidade não foi diferente. Desde março de 2020, as aulas, antes presenciais, passaram a ser oferecidas, na maioria das instituiçãoes, no formato “online em tempo real”, sublinhando a diferenciação entre este formato (no qual o professor entra na chamada de vídeo no horário que seria da aula presencial) e o já conhecido ensino à distância.

Professores e alunos passaram por um processo de adaptação e agora, no final do terceiro semestre de aulas neste formato, podemos olhar para as experiências vividas em busca de se compreender como a produção acadêmica deste período foi impactada. Em particular, olho aqui para a produção acadêmica dos alunos que ingressaram no ES durante a pandemia e estão terminando o seu primeiro semestre letivo em um curso superior de tecnologia na área da computação.

As turmas de primeiro semestre normalmente apresentam uma paixão por aprender muito característica e que, salvo algumas excessões, vai se dissipando durante os demais semestres… Além da predisposição dos alunos, há no primeiro semestre, a idéia de trabalhos interdisciplinares, que diminuem de certo modo a carga de tarefas, ao priorizar aquelas que têm mais significado teórico-prático e que possam contribuir diretamente com o perfil pretendido para os egressos. É neste contexto que se destaca a produção que compartilho aqui.

Antes da pandemia, desenvolvíamos como projeto interdisciplinar um jogo analógico, normalmente de tabuleiro ou de cartas, que os alunos apresentavam em um dia de festividades e viam em seus projetos a consolidação de um semestre de dedicação. Durante a pandemia, mantivemos essencialmente a mesma ideia, entretanto algumas camadas de complexidade foram adicionadas, uma vez que agora os alunos não estariam colaborando presencialmente e cuja supervisão também seria diferente do que estavamos acostumados.

Aspectos como o uso de tecnologias inovadoras, emprego de ferramentas de comunicação e colaboração online, e adaptação das idéias analógicas para um formato online que pudesse ser acessado por pessoas geograficamente distantes passaram a fazer parte das discussões dos grupos, em substituição às dificuldades de contratação de gráfica, metodologias para prototipagem e qualidades de impressão, que eram temas recorrentes no modelo pré-pandêmico.

Há alguns anos eu ouvi de um orientador que toda mudança na vida tinha ao menos 3 grandes etapas: a tese, a antítese e a síntese. Percebo os últimos semestres de educação no novo formato como uma tradução precisa desta teoria. No primeiro semestre, a tese, tínhamos uma necessidade clara: dar conta de terminar o semestre que havia se iniciado presencialmente. Foi uma aventura, cheia de inseguranças, mas aconteceu. No segundo semestre, a antítese, adaptamos melhor as aulas que inicialmente eram planejadas para um outro formato de interação e introduzimos discussões que passaram a fazer sentido apenas durante o novo formato de aprendizado, em uma expectativa de melhoria da experiência tanto dos alunos quanto dos professores. No terceiro semestre, a síntese, começamos a colher resultados do amadurecimento tanto dos envolvidos quanto das metodologias e das ferramentas emperegadas para a mediação online. Parece que as coisas começam a deixar de trazer tanta angústia e passam a fazer mais sentido.

Mas então, o que se espera dos projetos acadêmicos na pandemia? acredito que teria uma resposta diferente para esta pergunta em cada um dos semestre que se passaram, mas hoje eu acredito muito que esperamos que estes projetos reflitam parte do sentimento e da percepção que esses alunos trazem sobre o tempo em que vivemos. Estas características podem aparecer de maneira implicita, como na experiência que compartilho, que apresentam constatações dos grupos sobre o tema: ciência, mas de certo modo cada grupo interpretou o tema de modo bastante particular, tendo como pano de fundo a pandemia e seus desdobramentos.

Há muito a se pensar sobre isso tudo, mas me permito a ficar por aqui (ao menos por enquanto) e deixo um vídeo com a compilação dos projetos desenvolvidos pelos alunos deste semestre. Um ótimo exemplo de que com dedicação é possível se desenvolver projetos com significado mesmo que na pandemia.

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