A inclusão digital e os desafios para os profissionais da computação

Com a pandemia evidenciou-se a importância do acesso aos meios de comunicação digital por parte de toda a população. Este cenário foi escancarado pela educação, que até agora, em nosso país, passa, na maioria dos estados, por transformações através da adoção de metodologias à distância ou híbridas para a continuidade do processo de ensino e aprendizagem. Neste texto, entretanto, ainda que reconhecendo a importância de se discutir sobre o barateamento dos hardwares e a necessidade de massificação no acesso à banda larga, a ideia é falar sobre outro assunto: a inclusão digital (compulsória) de idosos.

Nesta semana uma vizinha me procurou com um pedido de ajuda um tanto quanto inusitado: ela precisava agendar uma consulta no posto de saúde do bairro, mas não conseguiria fazê-lo sem o cartão do SUS (que havia perdido). Me pareceu justo que cada paciente tenha um método de identificação que permita ao provedor do serviço contabilizar seus recursos e criar estatísticas que possam servir de alimento à melhoria do próprio sistema, em concordância com os preceitos dos sistemas de informação. Ocorre que, para ter o acesso ao cartão, a senhora deveria, ela mesma, se cadastrar em um “sistema” (era na verdade um formulário) para que o cartão fosse emitido e, posteriormente, retirado pela senhora na unidade básica de saúde do bairro.

Acessamos o endereço indicado e realizamos o cadastramento da nova usuária, não sem antes ela me passar todas as suas informações pessoais, tais como: RG, CPF, endereço, telefone, estado civil, sexo, data de nascimento, nomes da mãe e do pai e e-mail. Este último, por sinal, não existia, mas tudo era obrigatório. É claro que neste caso as informações da senhora estavam protegidas pela confiança que ela depositou em mim para a realização da tarefa, mas quantos precisam do mesmo cartão e não conhecem alguém em quem confiam minimamente? ou ainda, quantos apresentam suas informações pessoais para pessoas desconhecidas ignorando os perigos de terem suas informações compartilhadas?

Cadastramento realizado, mais uma usuária contabilizada no sistema e mais um número somado ao relatório dos incluídos digitalmente. Este episódio me fez recordar de um estudo de 2019, que traçou um panorama sobre a inclusão digital na cidade de São Paulo. No estudo, os autores evidenciam que com o passar dos anos, de fato mais pessoas têm adotado as tecnologias de informação e comunicação (TIC) em seu cotidiano, entretanto, o fator idade é determinante para que se perceba os bolsões de exclusão. A pesquisa aponta que, enquanto entre a população de 10 a 34 anos o acesso às TIC é praticamente universal (96%), o índice cai para aproximadamente 48% entre a população com mais de 60 anos. Os indicadores são ainda mais alarmantes quando há uma variável qualitativa, que tenta perceber o quanto o usuário é autônomo diante das TIC, o que faz com que apenas 22% da população com mais de 60 anos se enquadre neste grupo.

Ainda que pareça inofensivo ou economicamente desimportante, quando olhamos de perto para o cenário apresentado percebemos alguns desdobramentos que implicam em desafios para diversas áreas da computação… pensamos, por exemplo, nas dificuldades para se efetivar uma política de segurança da informação quando os usuários provavelmente não entendem a importância das medidas propostas. A identificação de multifator, uma alternativa comumente defendida atualmente, pode significar uma elevação na dificuldade de acesso às informações e, consequentemente, a perpetuação da situação de exclusão deste público para com as TIC. Outro fator preocupante está no uso não crítico das ferramentas, com desdobramentos que podem ir desde a facilitação da ação de pessoas mal intencionadas para obtenção de vantagens indevidas sobre este público, até o estabelecimento de um ambiente ideal para o crescimento orgânico das fake news

Um caminho possível para a mitigação deste cenário parece ser o do letramento digital, que se  distingue da inclusão digital ao considerar também os aspectos qualitativos do contato com as TIC. Como fazer com que essa prática alcance uma maior parcela da população é, provavelmente, um desafio a ser enfrentado. Há, porém, outros desafios, como a criação de métodos de interação, de interfaces e de segurança da informação adaptados ao público idoso e que possa se adaptar (e responder através de reconfigurações) a partir das dificuldades detectadas pelo próprio sistema. 

É bem interessante ver que, por mais que a computação esteja tão desenvolvida, se olharmos com atenção, ainda podemos perceber espaços para que novas soluções surjam e facilitem a nossa vida… Por hora, entretanto, ficamos por aqui enquanto aguardamos o cartão do postinho =)

leia mais em:

https://cetic.br/media/docs/publicacoes/7/11454920191028-desigualdades_digitais_no_espaco_urbano.pdf

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